Casa de Pensão é um dos produtos mais bem acabados do que se chamou de romance-tese, muito comum na estética naturalista. Nesse tipo de narrativa, busca-se provar um ponto de vista, geralmente que restringe o destino dos personagens a algo para o qual já estão fadados por elementos externos à sua vontade.
Dessa forma, temos dois personagens que servem à tese que Aluísio quer montar: Amâncio, o protagonista, e João Coqueiro, o "antagonista". Para os dois, temos teses naturalistas agindo, como o Determinismo, no caso dos dois personagens marcados por infâncias violentas, e uma irracionalidade, uma animalização incapaz de refrear os instintos. Essa, por sua vez, manifesta-se em duas frentes. Para Amâncio, vem na sua sexualização quase compulsória. Já para Coqueiro, aparece no final, quando cego pela humilhação pública da absolvição de Amâncio, resolve assassiná-lo a sangue frio.
Começando pelo início: uma casa de pensão, no século XIX, era uma espécie de Airbnb, no qual podia-se alugar um quarto privativo e também contar com pequenos serviços como alimentação, limpeza do quarto e lavagem das roupas mediante o pagamento mensal de uma quantia estipulada. Em "casa de pensão" , o pensionato de Madame Brizard é uma casa de família, na qual ela própria habita com marido, filhos e cunhada, e administra. Dessa forma, ela oferece o serviço de hospedagem decente e honrada, dentro do que a sociedade da época esperaria de uma família burguesa.
Casa de Pensão, de Aluísio Azevedo, é um dos melhores romances brasileiros do século XIX. Ao mesmo tempo, é obra singularíssima na trajetória de nossa história literária, pois sua realização constitui um modo bastante especial de diálogo entre literatura e jornalismo no Brasil.
Depois de ter produzido duas obras de teor romântico-folhetinesco, com Casa de Pensão (1883) Aluísio retornava à vertente que o consagrara em O mulato (1881): o Naturalismo. E para a composição da narrativa de Casa de Pensão o escritor acolheu um acontecimento de estrondosa repercussão na imprensa jornalística “O caso Capistrano”, a morte de um estudante ingênuo e provinciano que havia migrado para o Rio de Janeiro. Aloísio aproveita tal caso jornalístico tingido de sangue, sexo e vingança e constrói um desenho ficcional que primorosamente desenvolve o tema da reificação humana: Amâncio, o protagonista do romance — espécie de máscara ficcional do estudante Capistrano— é ardilosamente capturado por uma armadilha montada pelo interesse financeiro.
É inegável que Aluísio buscou captar para o seu romance atenção de um público que parece ter ficado impactado com o caso jornalístico da tragédia Capistrano. Todavia, para além da estratégia comercial, o “decalque” de um fato jornalístico possui nesse caso um precioso significado que não foi percebido por nossa crítica literária: na concepção de uma obra de teor naturalista como casa de pensão, recorrer ao jornalismo significou associar-se a uma atividade que se assumia, em fins de século XIX, como instrumento privilegiado de captação da realidade empírica. Nota-se, pois, que Aloísio não utilizou o jornalismo como mero veículo de difusão editorial — o que era muito comum dos escritores da época — mas recorreu a ele para fortalecer as próprias convicções da literatura naturalista. Afinal, o “projeto” empírico-materialista do século XIX encarnado pela literatura realista-naturalista encontra flagrante afinidade com um jornalismo estreitamente afinado com uma postura positivista, que buscava nos fatos um modo de conhecer o real, desfazer ilusões.
Primoroso na elaboração estilística, magistral na composição dos tipos sociais, sólido na arquitetura do enredo, Casa de Pensão descortina um cenário urbano, o da corte carioca, afinando com argúcia o olhar que capta um espaço miúdo e entulhado de conflitos humanos, a degradante habitação coletiva, em que se apresentam os mais diversos – e inesquecíveis – personagens, tomados quase todos pela mediocridade e mesquinharia. No final das contas, Casa de Pensão se firma como notável realização literário e, como tal, é obra para todos os tempos.
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Postamos um vídeo sobre os elementos da narrativa no livro Casa de Pensão. Clique aqui para acessar.
Criamos uma página dedicada ao Caso Capistrano, crime violento que inspirou a obra de Azevedo. Clique aqui para acessar.
Postamos duas análises de personagens em vídeo: Amâncio e as mulheres, e Coqueiro, o antagonista.