Amélia é, dentre as mulheres representadas, talvez a mais pragmática, quem menos pensa e mais age pela sua própria sobrevivência. De certa forma, ela também tem seu destino determinado na infância, por uma criação sem pai, com a mãe viúva cuidando de hóspedes que entram e saem da sua casa. Embora esse aspecto não seja necessariamente explorado pelo narrador, Amélia segue as orientações do irmão à risca, sem questionar ou interpelá-lo sobre os sentimentos e desejos que ela mesma teria, quando Janjão chega com o plano de arranjar-lhe casamento com Amâncio. Em nenhum momento ela coloca algum empecilho ou capricho seu que não atenda ao plano de sobrevivência do irmão.
Assim, o que move Amélia é muito mais um instinto de sobrevivência, um cumprir de tarefas designadas pelo irmão, que garantiriam a sua própria existência, do que os próprios desejos e caprichos.
"Amélia, por conseguinte, cresceu em uma casa de pensão. Cresceu no meio da egoística indiferença de vários hóspedes, vendo e ouvindo todos os dias novas caras e novas opiniões, absorvendo o que apanhava da conversa de caixeiros e estudantes irresponsáveis; afeita a comer em mesa-redonda, a sentir perto de si , ao seu lado, na intimidade doméstica, - homens estranhos, que se não preocupavam com lhe aparecer em mangas de camisa, chinelas e peito nu.
Ainda assim deram-lhe mestres. Aprendera a ler e a escrever, tocava já o seu bocado de piano e, - se Deus não mandasse o contrário- havia de ir muito mais longe."
Quando ela intercepta a carta de Amâncio, o que mais lhe dói é seu orgulho de mulher traída. É saber que moveu tudo que estava a seu alcance para ser trocada num estalar de dedos. É esse orgulho ferido, esse amor próprio escamoteado que vem à tona e articula com o irmão a vingança.