Dona Maria Hortênsia, esposa de Campos e irmã de Carlotinha, figura no início da narrativa como uma dona de casa exemplar. O narrador dá a entender que a escolha de Campos por ela se deu pelas suas qualidades de asseio e de bom senso.
A grande marca dessa personagem feminina é o bom trabalho que faz no gerenciamento de seu lar, com economia, seriedade e limpeza. Todavia, já na primeira noite de Amâncio na capital fluminense, os braços alvos e sedutores (sim, os braços) de Dona Hortênsia acabam chamando mais atenção do que deveriam, levando o rapaz a sonhar com ela.
“D. Maria Hortênsia, menina de boa família, sofrivelmente ajuizada e com dote. Pouco levou a pedi-la e a casar-se.
Nunca se arrependera de semelhante passo. Hortênsia saíra uma excelente dona de casa, muito arranjadinha, muito amiga de poupar, muito presa aos interesses de seu marido, e limpa, ‘limpa, que fazia gosto’!”
Apesar de toda a mansidão e retidão que envolve a personagem, ela ainda assim é colocada em posição de desvio moral, quando ela cede aos pedidos de Amâncio para valsarem juntos em uma festa. Além disso, posteriormente, a senhora casada e honrada acaba também sendo tentada pela voluptuosidade de o que, em uma perspectiva naturalista, realça o reinado dos instintos animalescos da sexualidade sobre a moral, os valores e a racionalidade dos seres, sobretudo das mulheres.
A mulher de Campos é apresentada como uma excelente esposa e dona de casa, ajuizada, honesta e, num primeiro momento não faz questão nenhuma de aceitar Amâncio dentro de casa, fazendo-lhe as honras muito educada e formalmente, mas sem demonstrar-lhe nenhuma simpatia pessoal. Isso, entretanto, não é suficiente para que Amâncio a deseje ardentemente, fazendo com que ela seja a única coisa que faça com que ele repense sair da casa do Campos. Mas, quando o estudante vai se despedir, ela revela uma maior amabilidade com ele, pois havia se acostumado com a sua presença.
A situação e o interesse dela pelo provinciano mudam completamente no Baile do Melo, no Capítulo IX, quando Amâncio se revela exímio dançarino. Tal virtude acende um interesse enorme em Hortênsia, que adora dançar, mas não o faz porque o marido não gosta de vê-la valsando... Nessa dança toda a sorte de Amâncio com Hortênsia muda, pois ela cede à condução da valsa dele e a cena é descrita acentuando o caráter sexual e libidinoso pelo narrador:
"O rapaz ergueu-se como um soldado que ouvisse tocar a rebate.
Ela não resistiu, levantou-se de um salto e entregou-lhe a cintura.
Dançaram. A princípio vagarosamente: depois, como a música se acelerasse, Amâncio arrebatou-a. Ela deixou-se levar, a cabeça descansada nos ombros dele, as mãos frias, a respiração doida.
A música redobrou de carreira.
Foi então um rodar convulso, frenético: a casa, os móveis, as paredes, tudo girava em torno deles.
Hortênsia dançava tão bem como o rapaz. Os dois pareciam não tocar no chão; os passos casavam-se como por encanto; as pernas gravitavam em volta uma das outras com precisão mecânica.
Encheu-se a sala de pares. Amâncio fugiu com Hortênsia, sem interromper a valsa; pareciam empenhados numa conjuntura amorosa. Ela arfava sacudindo o colo com a respiração; os seus braços nus tinham uma frescura úmida; os olhos amorteciam-se defronte dos dele; não podia fechar a boca, e seu hálito misturava-se ao hálito fogoso do estudante.
De repente, Amâncio parou exausto. Ouvia-se-lhe de longe as respiração.
- Não! não! balbuciava ela, quase sem poder falar. - Ainda! Mais um pouco!
E abraçaram-se e novo, freneticamente.
Quando parou a música Hortênsia caiu sobre um divã pelos braços de Amâncio.
Não podia dar uma palavra; não podia abrir os olhos. Sua respiração parecia longos suspiros contínuos e estalados."
Tal valsa e o comportamento de Hortênsia na sequência do baile, fazem com que o narrador comece a colocar a idoneidade da mulher de Campos em cheque. Amâncio impressiona-se com o fato de ela, tida por todos como tão austera e casta, ser tão "fácil de se levar como as outras". Hortênsia talvez seja a única personagem que de fato muda ao longo da narrativa. Se no início ela tinha má vontade com o protagonista, ao final ela fica doente ao saber da morte dele, não sem antes negar-lhe um beijo. O que acontece é que Hortênsia se mantém firme ao compromisso do casamento quando há oportunidades reais de se envolver amorosamente com Amâncio, mesmo admitindo se sentir atraída por ele. O arrependimento vem de forma incontrolável, quando ele vai preso e se intensifica quando fica sabendo da carta que ele teria escrito para ela. É quando ela imagina que ele talvez tivesse de fato sentimentos por ele, não sendo somente uma aventura e que tudo que ele estava passando era em consequência da recusa dela.
Assim, sentindo-se culpada pela situação em que Amâncio se encontrava, ela escreve para ele, declarando seu amor e esperando-o de braços abertos. A morte dele foi devastadora para ela:
"Hortênsia, quando lhe constou o terrível desfecho daquele episódio que, na sua fantasia romântica, tomava as proporções de um poema, caiu sem sentidos e ficou prostrada na cama por uma febre violenta. Durante esse tempo, o marido procurava na prisão o assassino para lhe oferece os seus serviços e pôr à disposição dele o dinheiro de que precisasse."
Hortênsia representaria, se tivéssemos um romance romântico, o par perfeito para o protagonista, dividindo com ele esse "amor" impossível. Mas, como temos um romance Naturalista, há o descompasso entre a idealização do amor impossível, sentido por Hortênsia, e o desejo sexual incontrolável, que é o que move Amâncio.